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“Não existe mão de obra mais especializada que os Catadores”

por Samuel Ferreira — publicado 26/04/2019 14h30, última modificação 26/04/2019 14h31
Afirmação sinaliza para o direito das cooperativas serem contratadas pelas gestões públicas.

Durante participação no 2º Fórum de Resíduos Sólidos do Alto Tietê, o catador Roberto Rocha enfatizou a importância da inclusão dos catadores em todos os temas relacionados à gestão de resíduos sólidos, tanto pelo protagonismo histórico deles na luta por políticas públicas voltadas à categoria, quanto pela experiência profissional adquirida ao longo dos anos.
Intitulado ‘Desafio do Lixo – O Ciclo do Consumo’ e promovido pelo Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (CONDEMAT), o fórum foi realizado na segunda-feira (22), no Núcleo de Educação Ambiental (NEA) Sinhô Muniz, em Ilha Grande, região central de Guararema.
O evento discutiu a questão dos resíduos e as ações em busca de soluções voltadas à sustentabilidade, com melhores práticas de reaproveitamento de materiais.
Com a exposição do painel “Coleta Seletiva – Inclusão dos Catadores: Avanços e Desafios”, Rocha representou a Associações de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) - da qual é o atual presidente - e o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR).
O mesmo painel teve a explanação de Dione Manetti, diretor-presidente da Pragma – Soluções Sustentáveis, empresa especializada em desenvolvimento de projetos, que oferece suporte técnico à ANCAT.

Dezenas de membros do Comitê de Catadores do Alto Tietê participaram do fórum, representando suas respectivas cooperativas, tais como Cruma (Poá), Univence (Suzano), Cooper Ares (Salesópolis), Coop Reciclável (Guarulhos), Luta e Vida (Guarulhos), Cora (Arujá), Cooperalto (Biritiba Mirim), Recicla Mogi (Mogi das Cruzes) e a anfitriã Guararecicla.
Além de membros do poder público, o debate reuniu instituições e empresas com referências no assunto, onde abordaram temas voltados aos desafios da coleta seletiva com inclusão de catadores, experiência de moradores e reaproveitamento de resíduos orgânicos. Ainda foram expostos painéis com os destinos de resíduos como plástico, metal, papel, vidro e isopor.
Ricardo Moscateli, Assessor de Análises e Sustentabilidade Ambiental da Prefeitura de Guararema e Coordenador do Conselho Municipal de Meio Ambiente, abriu os debates com o painel “A experiência de Guararema na gestão de resíduos sólidos”, seguido por José Idasil Vitor, vice-presidente da Cooperativa Guararecicla, que relatou a experiência positiva obtida com a coleta seletiva na cidade, de grande receptividade pela população, segundo ele.
AVANÇOS E DESAFIOS
Em sua fala, Roberto Rocha traçou um resumo de alguns aspectos relacionados à criação do MNCR, bem como os avanços, desafios e conquistas por meio da militância por políticas públicas de apoio aos catadores, além da luta pelo fim dos lixões, do trabalho infantil e o reconhecimento da categoria de catadores de materiais recicláveis pelo Ministério do Trabalho, que acabou sendo inserida na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).
“A grande importância para nós enquanto catadores é poder dizer, sem nenhum medo ou preconceito, que nós somos catadores de materiais recicláveis, que é uma grande profissão”, afirmou.

Rocha chegou a citar outras conquistas da categoria, entre elas o decreto que regulamentou a coleta seletiva em órgãos públicos federais, com destinação às organizações de catadores.
Ele lembrou que a Lei de Saneamento Ambiental é muito importante para a categoria e para a região do Alto Tietê. “Eu acho que, quando a gente faz a discussão nesta região com relação aos resíduos, precisamos aprofundar e essa lei nos dá a possibilidade de as cooperativas de catadores serem contratadas sem passar pelo processo de licitação”, disse.
Destacou ainda que todo debate relacionado ao tema tem como base a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lembrando que a IV Conferência Nacional do Meio Ambiente (realizada em 2013) foi um importante espaço para tratar do assunto, com forte presença dos catadores de materiais recicláveis.
Na pontuação dos avanços e desafios, ele salientou a importância do entendimento de que os catadores também estão inseridos na grande cadeia da reciclagem. “Nós não queremos mais sermos vistos como coitadinhos, queremos ser vistos como profissionais de fato. A gente se envolve no trabalho como qualquer outro”, afirmou.

“Esse mercado da reciclagem está tão dinâmico que estão surgindo empresas querendo nosso ‘know how’ para se estabelecer no mercado. Se as prefeituras querem que nós recolhemos cada vez mais o produto pós-consumo dos moradores, para que deixem de ir para o aterro sanitário, nós precisamos ser pagos por esse serviço. Temos que começar a encarar as cooperativas como prestadoras de serviços. Se elas não forem vistas como prestadoras de serviço, vai ficar muito difícil”, alertou.
O líder ainda ressaltou que as empresas fabricantes de embalagens devem fazer parte da conta, sendo necessário um plano que, de fato, inclua os catadores como prestadores de serviço. “Não existe mão de obra mais especializada, mais organizada, que conhece todo o processo dos recicláveis, que os catadores de materiais recicláveis. É fundamental que a gente avance nesse processo, de uma forma diferente”, disse.

O gestor informou ainda que, embora a ANCAT esteja fazendo a sua parte, com investimentos em várias cooperativas do Alto Tietê, precisa de um maior apoio, tanto do setor público quanto do privado, para o avanço do processo.
“É possível sim, eles [catadores] operarem uma mega planta no Alto Tietê, mas desde que haja vontade, tanto do setor privado quanto do setor público, para tocar isso”, ressaltou.
De entendimento semelhante, Dione Manetti frisou que realmente as cooperativas precisam se adequar ao atual cenário do mercado e, para isso, precisam de investimentos, devido à existência de uma economia capitalista e o exigente mercado.
Segundo ele, apesar de a cooperativa ser uma organização coletiva, com autogestão e laços solidários, ela deve atuar no mercado enquanto unidade econômica e ser viável economicamente.

“Quando a gente fala aqui dos desafios da coleta seletiva, eu diria que, mais que pensar como fazer de forma qualificada - e esse é o objetivo dos catadores -, é a gente ter a consciência de que a contratação das organizações de catadores para fazer a coleta seletiva é elemento central para a construção de sua viabilidade econômica”, disse.


POLÍTICA DE PARTICIPAÇÃO DOS CATADORES
O Assessor em Resíduos Sólidos da Secretaria Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, José Valverde Machado Filho, participou do debate com a apresentação do painel “Desafios dos resíduos sólidos urbanos no Estado de São Paulo”, cuja proposta é a busca de soluções para as cidades paulistanas.

“É muito oportuno ter nesse diálogo aqui a presença de cooperativas e representantes dos catadores. O Estado de São Paulo tem uma visão estratégica para o cooperativismo na gestão dos resíduos sólidos”, disse, frisando ainda que os catadores serão convidados a integrar o diálogo específico da logística reversa e da coleta seletiva.
“Nós queremos fazer de São Paulo um Estado que faça da coleta seletiva, da logística reversa e da reciclagem bons arranjos produtivos de negócios, para que a gente possa ter viabilidade econômica, ‘linkada’ com a questão social e ambiental”, concluiu.

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