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“Atrás de montanhas de recicláveis existem pessoas que precisam ser dignamente reconhecidas pelo seu trabalho”

por Samuel Ferreira — publicado 16/10/2019 11h05, última modificação 16/10/2019 11h07
O catador Roberto Rocha alertou há necessidade de maior valorização do trabalho da categoria

Na manhã da última terça-feira (8), durante simpósio realizado na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo - que trouxe o tema “Dignidade no trabalho de reciclagem, para inclusão social” -, o catador Roberto Laureano da Rocha enfatizou os avanços sociais conquistados pela luta da categoria ao longo dos anos e frisou que tem muito a avançar para a inclusão social de catadores que ainda trabalham de forma desumana e exploradora.

Presidente da Associação Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (ANCAT) e membro da Comissão Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), o líder ressaltou que, apesar da experiência e profissionalização desses trabalhadores para a prestação de um serviço de coleta seletiva de qualidade, falta mais valorização do trabalho da categoria na cadeia produtiva da reciclagem, através de uma participação mais justa.

“A gente vem trazer aqui um tema muito importante, a nossa categoria, de catadores de materiais recicláveis. Quando a gente está falando de trabalho decente, estamos falando aqui de trabalhadores de fato, que estão lá na ponta, no dia a dia, fazendo seu trabalho, assim como eu, há vinte anos desenvolvendo esse trabalho. Eu sou um catador que veio da história de ‘catador de rua’, assim como muitos amigos da população de rua”, disse.

Roberto disse ainda que no Brasil há uma estimativa de oitocentos mil a um milhão de catadores em atividade, sendo 85 mil deles ligados ao MNCR. “Nós temos muito a avançar, porque tem muitos catadores, principalmente na região Nordeste, que vivem nos lixões a céu aberto e catadores nas grandes metrópoles, assim como São Paulo. Nós temos uma grande quantidade de catadores que estão desenvolvendo um trabalho ainda nas ruas, de forma desumana e exploradora”, alertou

O líder destacou que a grande luta e reivindicação é que os catadores sejam prestadores de serviço pelo que eles fazem, apontando que, do ponto de vista do trabalho, os catadores estão segurando quase 90% de todo o processo da cadeia produtiva de recicláveis, mas do ponto de vista do capital é o contrário, porque os catadores só ficam com uma pequena porcentagem, gerando uma desigualdade muito grande.

“É importante para nós entender que, quando a gente fala de trabalho decente, atrás de montanhas de recicláveis existem sempre pessoas que precisam ser dignamente e decentemente reconhecidas pelo seu trabalho, que são esses catadores e catadoras de materiais recicláveis, que a cada dia estão aí limpando, contribuindo com o meio ambiente”, finalizou.

Mais apoio do poder público

Por sua vez, a catadora Dulce Alves de Andrade, da cooperativa de catadores Chico Mendes, pediu a colaboração da iniciativa privada e mais atuação do poder público nas questões estruturais e sociais que envolvem a cooperativa.

“Essas pessoas precisam de vocês e eu também. Pena que na cooperativa Chico Mendes a prefeitura não paga por nenhum serviço. Nós não temos lá na cooperativa uma balança, uma prensa, nada que é da prefeitura. A gente conseguiu com a sociedade civil. Eu fiquei feliz, porque eu, como mulher e representante de uma cooperativa, tive a oportunidade de falar às autoridades, para que, juntos nós conseguirmos a solução do problema, para um trabalho mais digno”, afirmou.

População em situação de rua

Presente ao evento, o presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua do Estado de São Paulo, Robson Mendonça, desabafou que a população em situação de rua está cansada de ser usada, de ser manipulada, de ser objeto de governos que têm projetos que naufragam com a sua não reeleição.

“Eu aprendi na calçada valorizar a quem nada tem. Estamos no caminho certo e vamos continuar, porque a vida gira em torno da vida e, para a vida girar em torno da vida, precisamos do trabalho, e do trabalho decente”.

Perspectivas de desenvolvimento

Em sua fala, o diretor geral do Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, Martin Hahn, disse que o trabalho decente também envolve a promoção de melhores perspectivas de desenvolvimento pessoal e integração social, para as pessoas expressarem suas preocupações, se organizarem e participarem das decisões que afetam suas vidas.

“Pessoalmente estou muito satisfeito em estar aqui, para podermos falar nesse simpósio sobre dignidade no trabalho de reciclagem para inclusão social. Temos três áreas de ação nessa declaração: a primeira é o aumento do investimento das capacidades das pessoas, a segunda é aumentar o investimento nas instituições de trabalho e a terceira é aumentar o investimento em trabalho decente e sustentável e falar de inclusão social dos trabalhadores e, mais particularmente, de reciclagem e coleta seletiva”, ressaltou.


Para Martin Hahn, o trabalho decente deve envolver desenvolvimento pessoal e integração social

Dignidade do trabalhador

Mediador da mesa, Edwaldo Sarmento, presidente do Conselho Estadual de Emprego e Trabalho Decente do Estado de São Paulo (CEETD-SP), ressaltou a importância do diálogo e da compreensão mútua nas relações de trabalho, entre outras ponderações.

Já o coordenador de Políticas de Emprego e Renda da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Elton Tony, frisou que “o trabalho decente busca justamente resgatar a dignidade da pessoa humana, os direitos humanos, o trabalho digno”.

“A Comissão de Emprego e Trabalho Decente achou melhor ser um grupo de amigos com o mesmo objetivo: tentar recuperar a dignidade do trabalhador, e falo isso enquanto empresário. Eu não consigo ver uma empresa produzindo se a sua força de produção está insatisfeita, tediosa”, disse.

Por sua vez, Eduardo Pastore, advogado trabalhista e Mestre em Direito das Relações Sociais da PUC-SP, afirmou que a falta de boas relações interpessoais numa cooperativa é um aspecto difícil que deve ser superado. “Quando você agrega, compartilha e se cria o espírito solidário nesse tipo de empreendimento, é muito mais fácil o trabalhador cooperado ou sócio cooperado se identificar com o negócio, se sentir partícipe e vem a sensação de bem-estar e de felicidade”, disse.

Para o Assessor Estratégico do Comitê de Integração de Resíduos Sólidos (CIRS) e da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA), Ivan de Oliveira Mello, o resíduo sólido está sendo percebido como algo que precisa ser valorizado e é preciso de forma definitiva parar de enviá-lo para o aterro. Uma das ações positivas, segundo ele, foi a inclusão da parte de Resíduos Sólidos ao PPA (Plano Plurianual).

“Isso é uma diferença fundamental, parece pouco mas é muito importante, ou seja, hoje você vê resíduos sólidos como algo orçamentário. Então você começa a realmente poder dar valor aos resíduos e a quem trabalha os resíduos e está junto com essa ação”, disse,

Ao tomar a palavra, o empreendedor Marcos Cavalcante falou sobre a inclusão socioeconômica de pessoas. “Aquilo que nós jogamos fora é aquilo que nós queremos entregar para que ele seja desfeito e nós tratamos como algo que não tem valor. Quando nós desintegramos as pessoas da sociedade isso se volta contra a sociedade através da violência”, disse, citando ainda o projeto de uma plataforma cujo conceito é a economia circular.

Presente ao evento, o rapper ‘Pirata’ improvisou um rap sobre o tema em discussão, seguido de Robson Mendonça, que também cantou um rap alusivo ao assunto. O evento na capital paulista foi em alusão ao Dia Internacional do Trabalho Decente, comemorado no dia 7 de outubro.

 


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